Da Folha de SP:
Reféns do próprio meio e da história brasileira, os milhares de garotos que trabalham para o tráfico de drogas no país formam um exército invisível cujas baixas viram curvas de gráficos ou índices de mortalidade juvenil. Uma realidade sinistra.
Nem culpados nem inocentes, eles vivem um cotidiano sob extrema tensão, à espera da polícia, de facções inimigas, do X-9 (dedo-duro) ou da mancada que pode fazê-los provar do mesmo aço que já dispararam outras vezes. "Eu gosto de matar. Vacilou? O crime é o crime", assume um deles.
O Folhateen conversou com 15 garotos, que exercem variadas funções na hierarquia do tráfico, durante suas atividades de rotina nas próprias comunidades onde vivem para saber como eles encaram o trabalho no tráfico, o dinheiro, a família, a polícia, o medo e a morte. Entre eles, de camiseta, bermudão e chinelo, estavam Luiz (nome fictício), 16, que é soldado do tráfico desde os 13, e José (nome fictício), 14 -que deu entrevista com um rifle russo AK 47 a tiracolo, arma que usa desde os 12. Detalhe: o comprimento do rifle se estendia por mais da metade de seu corpo. Leia, a seguir, trechos da entrevista. (FERNANDA MENA)
Folha - Como vocês entraram para o tráfico?
José - Entrei porque tudo o que eu pedia pra minha mãe ela me jogava na cara. E como é que eu vou ficar? Dependendo da minha mãe? Eu não.
Luiz - Minha história foi totalmente diferente. Eu queria mesmo era trabalhar. Mas como? Se, pra quem estudou, já está difícil, imagina pra nós que não temos nem isso. Eu não tenho estudo. Eu queria ser alguém na vida, mas, como não estou conseguindo, meu meio de trabalho é esse mesmo. Não posso ficar andando duro, tenho minhas coisas para comprar, uma roupa maneira. Pô, tenho um menor [filho] para vir aí, tenho que sustentar o menor.
Já trabalhei em obra e de marrequinho, que empurra carrinho de compra das senhoras do supermercado até em casa. Aí me mandaram embora com 12 anos porque não podia mais empregar menor. Depois de um tempo, comecei a roubar. E depois entrei pro tráfico. Porque ficar na pista roubando é mais perigoso do que ficar na boca dentro da favela. Agora fico aqui mesmo, dou tiro nos polícias mesmo e o bagulho é sério.
Folha - Vocês não têm medo?
José - Nossa noite é criminal mesmo. Se for acontecer alguma coisa com a gente, vai acontecer. Não dá pra prever. Se der para levar até mais pra frente, se a vida levar a gente mais adiante, melhor.
Luiz - Não há vitória sem luta e nós estamos lutando para ter o nosso. Eles [os policiais] não lutam para ter o deles? Então, nós também lutamos para ter o nosso.
Folha - Quanto vocês tiram em um mês de trabalho?
José e Luiz - Um barão, um barão e quinhentos [R$ 1.500].
Folha - As pessoas pensam que quem trabalha no tráfico é gente ruim. O que vocês acham?
José - Não é nada, rapá. Pode tirar por mim aqui. Estou falando com você com respeito.
Luiz - Peraí. Não é bem assim. Já disseram que o coração de vagabundo é na sola do pé. E é mesmo. Mas sendo que é com quem é ruim conosco. Com quem não é nós vamos ser bons porque ninguém aqui tem coração de pedra. Só vou ser ruim com quem é ruim comigo ou com a minha família. Vejo a vida aqui dentro da comunidade, tanta gente que precisa de uma ajuda do governo e eles esquecem de quem mora dentro de uma favela. Essas pessoas da favela só são vistas na hora de votar. Quando é pra votar, eles se lembram da gente. Vem cesta básica de montão. Dentro da favela nós precisamos de muito mais do que isso. Cesta básica, a gente corre atrás e consegue dinheiro pra comprar comida. A gente precisa é de estrutura.
Folha - Você acha que a situação de vocês pode mudar?
Luiz - Vou falar pra você que acompanhei na televisão as eleições e tenho esperança de que o Lula vá ajudar a gente. A não ser que, quando ele estiver lá, o poder suba à cabeça e ele não faça nada.
Folha - Vocês acreditam em Deus?
José - É claro. Primeiramente é sempre Deus.
Luiz - Eu não acredito em macumba, não. Acredito em Deus. Macumba existe mesmo. Mas Deus sempre vai estar comigo. Sempre vai estar no meu coração.
Folha - E você acha que Deus está ao seu lado até quando você mata?
Luiz - Ele não vai gostar, mas é preciso.
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