20021021

Fala pessoal, faz algum tempo que eu estou escrevendo um livro. Depois so vai ficar faltando plantar uma árvore, transar no bondinho do pão de açucar e inventar uma receita de espaguete.

Gostaria que vcs dessem uma olhada na demo (também conhecida como primeiro capitulo) e se conseguirem ler até o fim me darem uma opinião.

Valeu,

TR




Capitulo I - O universo segundo Paulo Tupinambá.

Eram dias dificeis. Dificeis porque os dias ainda não tinham acabado. Dificeis porque existiam dias melhores, dificeis porque não foram dias de prazer. Alguém ali de alguma forma estava se dando bem, mas ele sentiu que não era ele.

Aliás, ele não estava entendendo NADA. Desde que o Radiohead resolveu fazer aquele disco depois do OK Computer, as coisas não estavam mais fazendo sentido.

Foi quando ele admitiu que o mundo não fazia mais sentido.

Não que as coisas tenham melhorado depois disso, mas pelo menos ele entendia o mundo.

E o mundo continuava não fazendo sentido.

Ele era Paulo, Paulo Tupinambá. E o mundo era algum lugar no planeta Terra. Ou pelo menos era o que diziam para ele. Com tantas teorias da conspiração ele podia muito bem estar em K-22 que não fazia a minima diferença. Ele poderia estar vivendo na Matrix durante toda a sua vida que não fazia a minima diferença. Ele poderia estar vivendo em um mesmo dia durante a sua vida que ele nunca iria se dar conta de nada. Pobres aqueles que achavam que tinham alguma resposta.

Fazia algum tempo que ele tinha adotado quadros como o espelho do banheiro. De manha ele olhava para “O Grito” de Munch, de tarde seu espelho era “Nighthawks” de Hopper e quando a noite entardecia ele se via sempre dormindo naquele quarto alaranjado de Van Gogh, mesmo que ele tivesse dormindo em um hotel cinco estrelas (o que aliás muito raramente acontecia).

Era estranho como Paulo estava só. Era insuportável como Paulo estava só com seus problemas e era impressionante como só Paulo tinha a solução para seus problemas e é irritante perceber que em geral as soluções só apareciam quando os problemas já tinham acabado.

Ele era dos poucos que não acreditavam em terapia, como também não acreditava em médicos, como também não acreditava em doenças. Isso tinha a ver com o seu espirito prático quase doentio de só acreditar nas coisas que lhe causavam problemas, e como revelei no paragrafo anterior, so acreditar que ele mesmo tinha a solução para os seus problemas.

Se os problemas davam sentido para o mundo, quando não tinha problemas Paulo não via sentido no mundo então ele criava problemas para si mesmo, como por exemplo não ver sentido no mundo, e achar que é possível que ele, um mero ponto de exclamação divino, resolver problemas universais.

Sim, ele já se achou um heroi, já se achou um Heroi em potencial, já se achou um heroi incompreendido, um cineasta que não sabe filmar, uma Amelie Poulain que não está nem ai para as pessoas, um Woody Allen católlico, já se achou Deus e já se achou o Diabo, mas nos ultimos tempos ele tinha decidido ficar mais humilde por razões puramente comerciais.

Bem, no final de tudo é isso que conta, é justamente porque eram dias dificeis que Paulo tinha uma concepção do mundo própria, amarga, crônica, distinta. Se os dias fossem outros provavelmente Paulo desperdiçaria toda a sua armagura fazendo compras na Fnac e pedindo pizzas por internet, mas os dias eram tristes, haviam guerras, haviam crises, haviam protestos e ele não estava participando de nada. Estava vendo pela TV.

Paulo, ele, não suportava ficar ali parado.

Também achava que o mundo não precisava de mais um comentarista que ninguém iria ler, ouvir nem suportar.

Muito menos achava que em seu trabalho ele poderia mudar alguma coisa a não ser trocar seus dias por sua sobrevivência.

E o mundo continuava não fazendo sentido.

Se ele tivesse nascido na Inglaterra ele seria um cara normal.

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